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Qual cor tem a dor
TERCETO > Badu,Jorge Linhaça,Guida Linhares e Eugénio de Sá
EM COR LILÁS BADU Desenhei um menino que andava sozinho, pedras cortantes feriam seus pés descalços, nos percalços do andar desse caminho. Pintei, rabisquei e apaguei o sol, só assim percebi que a dor não tem definida cor. Não é da cor da paz, pois esta o que me traz é de uma luz tão brilhante. Discorda da alma, um cristal transparente, tem um tom qualquer, se eu soubesse qual é eu diria a você. Acho que leva rancor, uma marca, uma mágoa, reflete o incolor da água em lágrima transformada. Tão pouco é azul da saudade, pois essa na verdade, vai sempre doer. Um rubro escondido que o pôr-do-sol leva consigo, junto a um pedido de nunca mais sofrer. Penso ainda que é encardida de sépia por machucar, em um tempo que passou e na fotografia se perdeu e amarelou. Manchado vermelho corado, sangra o aceno já esperado, e no negrume de quem partiu sem poder falar o adeus. Desfolha seres como nós, assim faz com a flor, arranca nossas pétalas roubando nossa cor. Vejo que poderia ocultar a beleza em cortinas turquesa se bem mais forte a eternidade não fosse uma certeza. E quem já aprendeu pode comparar a dor com a face do amor, esse tem multicor, que pintou o criador. Em passos que ficaram para trás, nos reais traços fortes, realçando em cor lilás. ********************************** Qual cor tem a dor? Guida Linhares A dor tem a exata cor dos meus sentidos maiores É preta quando te olho e vejo somente tristeza É cinza quando te escuto e sinto frio na alma É marrom quando te beijo e siquer sinto emoção É opaca quando te toco e vejo que estás distante É inodora quando não se desprendem nossos aromas na hora maior Mas meu sexto sentido me diz que o amor foi embora e a minha percepção de tudo o que fomos e que agora nada mais nos une chegou ao limite máximo em que a razão se sobrepõe à emoção e nada mais resta do que sentir a dor da perda do amor Santos, SP 17/06/06 ********************************** O provador de vidas Se alguém pudesse decantar Como um bom vinho, a vida que tivemos Degustaria os bons e os maus anos Conhecendo os reveses nos taninos E as glórias nas castas que criámos Sabendo, assim, de nós, como de nós falar Na alegria radiosa da manhã outonal Ou nas melancolias do nosso entardecer Residem os aromas, as razões conhecidas Que marcam as encostas destas nossas vidas A tons de ouro as venturas, a negro o padecer Ao esgotarmos a essência, na vindima final Ergamos nesta taça o brinde que mereçamos De um néctar bom ou mau, p’lo que deixámos feito alguém dirá um dia desse vinho que herda que é uma pobre zurrapa ou uma grande reserva depende só de nós, se soubemos ter jeito de ganhar a memória daqueles a quem amamos Tal como a história de uma vida A memória da nobreza de uma boa colheita sobrevive à sua natural extinção. Eugénio de Sá Lisboa Portugal 2005
Guida Linhares
Enviado por Guida Linhares em 19/06/2006
Alterado em 30/10/2006 Comentários
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